Alguns debates sobre a compra do Twitter

Como a compra do Twitter pode impactar o mundo e o nosso país.

Na última semana o mundo foi bombardeado pela notícia de que Elon Musk comprou o Twitter por 42 bilhões de dólares ou, sendo mais exato, 210 bilhões de reais. Primeiramente, precisamos ter ideia do que significa esse montante de dinheiro. Então vale a métrica do salário mínimo. Com o salário mínimo atual (1.212,00 reais) uma pessoas, caso não gaste com mais nada, levaria cerca de 14 milhões e meio de anos para juntar o dinheiro necessário e comprar o Twitter.

Mas além do preço assustador, que outros debates essa compra poderá gerar?

Vale recordarmos o histórico dessa rede sociai como propagadora de debates públicos. Isso ficou em evidência especial durante o governo Trump nos Estados Unidos, porém, no Brasil, Bolsonaro também utilizou a plataforma para tal.

Por mais que o Twitter não apresente um número de usuários tão grande quanto as rede sociais da Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp) ou mesmo o Youtube da Google, a plataforma é, ela mesma, conhecida como influenciadora. Invariavelmente os debates políticos públicos em redes sociais tem o Twitter como ponto de partida.

Com um algoritmo bastante secreto, em que a métrica para levar um assunto aos trending topics, por exemplo, é bastante difícil de ser compreendida, o Twitter, por meio dessa e de outras ferramentas se tornou um hub de diversos influenciadores para saberem sobre o que devem falar com seu público em outras redes.

Mesmo tendo esse perfil de ser uma incubadora de tendências, a rede social jamais deu um grande lucro, pois seu modelo de negócio acaba sendo bastante frágil. Após anos no vermelho, apenas nos últimos anos o Twitter começou a apresentar lucros líquidos, não precisando mais ser bancado por investidores. Esses ganhos beiram a casa de 7% atualmente, um número bastante inferior aos quase 40% do lucro líquido do Facebook.

Do ponto de vista apenas do dinheiro, essa compra não faria sentido, pois, segundo as análises mais confiantes, Musk demorará ao menos 30 anos para ver algum retorno desse investimento.

Aqui temos uma primeira análise mais superficial, mas importante sobre essa compra. Elon Musk tem o privilégio de poder assumir um risco desse tamanho. Essa compra significou pouco mais de 10% de sua fortuna atual, avaliada em cerca de 300 bilhões de dólares. Portanto, ele é um exemplo de que, atualmente temos no mundo bilionários que podem se dar ao luxo de queimar um montante que um trabalhador comum demoraria 14 milhões e meio de anos para juntar.

Disputa de Narrativas e Debate Político.

O Twitter, a partir da sua definição como uma rede de formação de opinião e influência, se tornou nos últimos anos um dos principais pontos de disputas de debates políticos no mundo.

Em janeiro de 2021, durante a invasão do capitólio americano, a rede acabou sendo a primeira a se movimentar contrário à Trump, excluindo a conta do ex-presidente dos EUA de sua plataforma. Ação que posteriormente foi referendada em outras redes sociais.

De outro lado, o site também se tornou um poço sem fundo de desinformação e fake news durante diversos processos eleitorais e de disputas políticas pela opinião pública. Elon Musk vem se tornando um dos principais jogadores nesse processo de disputa, passando também por questões econômicas, em que o bilionário utilizou o Twitter para inflar e reduzir valores de ações, por exemplo. Isso gerou até decisões judiciais impedindo que Musk falasse de suas empresas em seu perfil.

Governos de todo o mundo, inclusive o brasileiro, vem tentando domar o monstro que o Twitter se tornou por meio de decisões judiciais e leis. Os países da União Europeia e da Ásia vem sendo a ponta de lança nessa disputa e contam, inclusive com o apoio de parte dos acionistas da plataforma, que se amparam no argumento da responsabilização da própria rede pelo controle e combate à desinformação e discurso de ódio que passam por ela.

A compra de Musk já é sentida como um bloqueio desse processo. Isso se deve à própria personalidade e inclinação política de Elon, mas também a concentração de poder em uma única pessoa, lembrando que, com essa transação, o Twitter deixa de ser uma empresa controlada por acionistas e passa a ter um dono.

O STF brasileiro já expressou preocupações, enquanto que perfis de extrema direita comemoraram a compra e, inclusive, fizeram ações automatizadas para inflar seus seguidores de forma a levar para suas bases que o negócio é bom para eles.

Musk é um defensor da “liberdade de expressão” da forma mais abjeta possível e há receios mundiais de que ele possa gerar impulsão, ou ao menos frear as medidas de controle e combate, do discurso de ódio e da desinformação na plataforma.

E no ponto de vista tecnológico

O mais inocentes e otimistas, que veem Elon Musk como um grande inventor e desenvolvedor tecnológico da humanidade, se animaram profundamente com a compra do Twitter. Em suas defesas há ideias referentes aos avanços que a “genialidade” de Elon Musk poderia trazer à plataforma.

Aqui vem a segunda análise necessária. Elon Musk não fez nenhuma fortuna desenvolvendo ou inventando revoluções para o mundo. Ele apenas se apossou da velha máxima do capitalismo, em que o risco público se transforma em lucro privado.

“MAS ELE INVENTOU O CARRO ELÉTRICO!!!”

Não. O primeiro carro elétrico de produção remonta à 1884. Foi inventado na Inglaterra. Todas as pesquisas de melhoria dos carros elétricos, como as baterias de Lítio, foram frutos de pesquisas públicas.


“MAS ELE FEZ UM MACACO JOGAR VIDEOGAME!!!

Sim. Ele fez isso em 2020 a partir do implante de um microchip na cabeça de um chimpanzé. O animal morreu 4 meses após aquele vídeo. Em 2003 (17 anos antes) a universidade de Oxford fez o mesmo processo com chimpanzés controlando aparatos por meio de um chip encostado em sua cabeça, sem a necessidade invasiva de uma cirurgia cerebral. Esse animal continua vivo até hoje. Os experimentos, inclusive, datam da década de 70 e, quase sempre, em universidades, não em empresas privadas (Chimp’s Brain Signals Itself by Computer – The New York Times (nytimes.com))

Elon Musk apenas se apossou do investimento público em conhecimento e privatizou os lucros disso.

Mas isso não é uma criação de Elon Musk. Muitas “mentes geniais” fizeram o mesmo. O conceito de Investimento Público e Lucro Privado é bastante utilizado. Afinal, Elon é apenas mais um bilionário, como tantos outros.

Por fim…

A compra do Twitter ainda é um processo não finalizado e deve ser aprovada pelos órgãos de fiscalização dos Estados Unidos, mas é muito provável que passe.

Por aqui, vale frisar a importância de algum debate sobre a soberania brasileira nesses assuntos. De certa maneira, o nosso processo político acaba se tornando refém das decisões de alguns bilionários estrangeiros, que agora receberão Elon Musk em sua sala privada.